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Astrônomos identificam estrelas que 'apagam' sem aviso e ampliam mapa de fenômenos raros no céu
Esses objetos, apelidados pelos astrônomos de big dippers (algo como 'grandes mergulhadoras1), desafiam classificações tradicionais da astronomia estelar. Diferentemente das estrelas variáveis comuns ...
Por Laercio Damasceno - 04/02/2026


Figura: CMDs de cada uma das fontes novas e conhecidas. As curvas de luz são sobrepostas para comparar os vários tipos de eventos. Algumas curvas de luz são omitidas para exibir corretamente as curvas de luz mostradas sem sobrepô-las umas sobre as outras. As localizações CMD destas curvas de luz são indicadas pelos quadrados que tocam a curva de luz. O resto das fontes são apresentadas de forma semelhante à Figura 2, os SDEs são vermelhos, os MDEs são azuis e os dippers são verdes


Um levantamento sistemático conduzido por pesquisadores de universidades dos Estados Unidos, da China e do Chile identificou uma nova população de estrelas que sofrem quedas bruscas e profundas de brilho — verdadeiros “apagões” cósmicos que podem durar dias, meses ou até anos. O estudo, baseado em dados do levantamento ASAS-SN (All-Sky Automated Survey for SuperNovae), analisou mais de 5 milhões de estrelas e revelou 19 novos sistemas raros, entre eles objetos encobertos por discos de poeira e estrelas binárias de período extremamente longo.

Esses objetos, apelidados pelos astrônomos de big dippers (algo como “grandes mergulhadoras”), desafiam classificações tradicionais da astronomia estelar. Diferentemente das estrelas variáveis comuns — que piscam de forma regular —, elas permanecem estáveis por anos e, de repente, escurecem de forma dramática, perdendo até quatro magnitudes de brilho.

“Estamos observando sistemas em que algo grande e opaco passa na frente da estrela, como um disco de poeira, detritos de colisões ou um companheiro estelar distante”, afirma B. JoHantgen, astrônomo da Universidade Estadual de Ohio e autor principal do estudo. “Esses eventos são raros, mas quando ocorrem, revelam processos físicos extremos.”

Do acaso ao método

Historicamente, fenômenos desse tipo eram descobertos quase por sorte, quando um astrônomo notava um comportamento estranho em uma curva de luz. O novo trabalho marca uma virada metodológica: pela primeira vez, uma busca sistemática foi aplicada a milhões de estrelas observadas ao longo de uma década.

Usando dados do ASAS-SN — uma rede global de telescópios capaz de monitorar todo o céu visível a cada poucas horas —, os pesquisadores filtraram estrelas que apresentaram quedas de brilho superiores a 0,3 magnitude. Após eliminar falsos positivos e variáveis conhecidas, chegaram a um conjunto enxuto de objetos genuinamente incomuns.

Foto: Rogelio Bernal Andreo

O resultado foi a identificação de três grandes grupos: estrelas binárias com eclipses únicos, binárias com eclipses múltiplos e as chamadas dipper stars, cuja variabilidade é causada por nuvens de poeira ou discos circunstelares.

Ecos de casos famosos

O estudo dialoga com episódios que já chamaram atenção do público e da comunidade científica, como a enigmática Estrela de Boyajian, que apresentou quedas irregulares de brilho e chegou a levantar especulações sobre megaconstruções alienígenas. Hoje, a hipótese dominante envolve poeira e detritos orbitais.

“Esses novos objetos mostram que a Estrela de Boyajian não é uma aberração isolada”, diz C. S. Kochanek, coautor do trabalho e também da Universidade Estadual de Ohio. “Ela faz parte de uma família maior de sistemas em que discos, colisões ou estruturas extensas obscurecem a luz estelar.”

Além de expandir o catálogo de estrelas raras, o estudo tem implicações amplas. Ao revelar como discos e detritos se comportam ao redor de estrelas maduras — e não apenas jovens —, os dados ajudam a refinar modelos de formação planetária e de evolução estelar.

Há também um impacto tecnológico e cultural. A pesquisa demonstra o valor de levantamentos astronômicos contínuos e de longo prazo, que produzem bases de dados públicas exploradas por cientistas do mundo todo. “É ciência de infraestrutura”, resume JoHantgen. “Quanto mais tempo observamos o céu, mais ele nos surpreende.”

Os autores defendem que futuras buscas, combinando aprendizado de máquina e novos levantamentos como o Observatório Vera Rubin, devem revelar centenas de objetos semelhantes nos próximos anos. Para a astronomia, isso significa transformar apagões antes inexplicáveis em peças-chave para compreender a dinâmica violenta — e fascinante — do universo.

Detalhes da publicação
Uma busca sistemática por padrões da Ursa Maior no ASAS-SN - B. JoHantgenDM RowanR. Forés-ToribioCS KochanekKZ StanekBJ ShappeeSubo DongJL PrietoTodd A. Thompson - https://doi.org/10.33232/001c.156224

 

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